“Inteligência Artificial a serviço da integridade eleitoral” foi o tema do TED Alike apresentado pelo pesquisador e cientista político Frederico Alvim, durante o terceiro dia (14) do IX Congresso Brasileiro de Direito Eleitoral (CBDE).

Alvim usou um caso ocorrido em sua infância para exemplificar os modos como a tecnologia afeta a sociedade e como esta recebe informações. 

O pesquisador indicou que, enquanto a informação era transmitida apenas por veículos de comunicação tradicionais, como televisão e rádio, a janela pela qual as pessoas viam o mundo era única e, pressupostamente, confiável. Visto que havia um filtro prévio nas notícias a serem divulgadas e, assim, as fake news acabavam sendo barradas mais efetivamente. 

Com o acesso à internet, houve o fenômeno de inflamação do círculo informacional. Nesta nova realidade, qualquer pessoa ganha o poder de transmitir informações sem um filtro adequado do que é verdadeiro ou falso e, assim, as ideias extremistas e desinformativas conseguem chegar a qualquer pessoa.

Contudo, Alvim aponta que esse cenário mudou novamente após a popularização das ferramentas de Inteligência Artificial (IA) e da evolução das plataformas sociais ao aperfeiçoar os algoritmos. 

“Quando o Google criou a máquina publicitária mais fantástica do mundo, passou a usar os dados de tráfego de meio e-mails, especialmente nas pesquisas feitas por seus buscadores, a possibilidade de segmentar seus usuários e saber quem estava interessado no que”, explicou o pesquisador. Alvim citou então o caso do Facebook, que possibilitou que, por meio de botões sociais, o livre comentário e curtida, permitindo que as pessoas expressem nas mídias sociais seus gostos e preferências e, sem perceber, meus medos e preconceitos.

Com essa nova possibilidade, as plataformas digitais trouxeram a ideia de usar gatilhos psicométricos para direcionar a opinião do usuário. Neste contexto, a partir de interações sociais, é possível “dissecar as nossas vidas” em centenas de parâmetros distintos.

“Não demorou para que, em 2016, esses dados fossem explorados para fins políticos”, pontuou Alvim e seguiu destacando que a comunicação massiva, que até aquele momento era por excelência uma comunicação pública, para se tornar uma comunicação individualizada e personalizada. “Neste ponto, mentiras deixaram de influenciar toda a população e passou a usar gatilhos psicométricos para saber para quem eu tenho que mentir e para que”, explicou.

Já no que diz respeito às tecnologias de 2024, o pesquisador traz para a pauta a IA generativa, que permite a criação de conteúdo original, como texto, imagens e até mesmo vídeos. “Essa nova tecnologia possibilitou que as mentiras, que já desestabilizavam a política, pudessem ser feitas com menor custo cognitivo e econômico, mas, ainda assim, com maior chance de convencimento”, alertou.

Com essa revolução tecnológica, Alvim trouxe ainda o crescente uso de robôs nas mídias sociais e explicou que os modelos passaram de “um para todos” (veículos tradicionais – população), para os sistemas “todos para todos” (acesso à internet e mídias sociais) e “BOT para todos”. O pesquisador aponta que, de acordo com pesquisas sobre o tema, ao menos 20% das contas do X, antigo Twitter, são movidas por robôs automatizados.

“Temos, como ser humano, a tendência a acompanhar correntes. Portanto, quando abrimos uma rede social e todo mundo está dizendo que algo aconteceu, naturalmente nossa mente é programada para acreditar que estas pessoas estão falando a verdade. Contudo, atualmente, nem sempre estamos tratando de pessoas”, ressaltou.

Além disso, Alvim alertou sobre como a ditadura algorítmica vem revolucionar e acabar com os filtros, que agora estão sendo colocados a partir da vontade do algoritmo.

“Nesse novo momento, somos cada vez mais condicionados a apenas acessar a realidade a partir de uma determinada lente”, afirmou Alvim e pontuou novamente o impacto da comunicação individual, mas, desta vez, unindo ao conceito da inteligência generativa e como está pode criar conteúdos mais personalizados para a manipulação direcionada às preferências de determinado grupo.

No âmbito eleitoral, as IAs generativas representam tanto um risco quanto uma oportunidade. Isso porque, por um lado, a possibilidade de ter um “estúdio de filmagem” em casa pode ser maléfica pela chance de criação de notícias falsas; mas pode representar também uma paridade de armas para os candidatos que não tinham condições de fazer uma campanha minimamente profissional.

“A tecnologia pode ser utilizada de forma positiva para o fortalecimento das instituições. Ela pode e tem sido utilizada ao redor do mundo para o fortalecimento da democracia”, declarou Alvim, citando exemplos do Paraguai e da Índia, onde a IA é usada para levar informação política às minorias étnicas que falam outro idioma.

Ao final, o pesquisador apresentou alternativas para avaliar o avanço da IA. Uma delas consiste em ter cuidado com essas possibilidades negativas, tendo consciência de que a realidade nas redes sociais não é a mesma do mundo. “Quando abro uma rede social achando que vou acessar o mundo, vou acessar o mundo lido pelos algoritmos de quem grita mais. E quem grita mais, é provável que não seja quem pensa direito”, alertou.

A outra alternativa, de acordo com Alvim, é utilizar as oportunidades de ação. “Usar a inteligência artificial como uma ferramenta em prol do bem-estar das pessoas, da sociedade e das democracias”, finalizou.

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